Dra. Agnes Ayumi

Dra. Agnes Ayumi / CRM 45153

Já teve a sensação  que uma experiência do passado continua afetando sua vida no presente? Que certas situações disparam reações emocionais intensas, seu corpo reage como se aquele momento estivesse acontecendo agora ? Isso são sintomas de uma possível memória traumática que não foi processada bem, podendo ser origem de diversos quadros psiquiátricos como ansiedade, TEPT, depressão, fobias, compulsões, insônias, dores somáticas …

Vou te explicar nesse artigo, sobre o EMDR, uma técnica psicoterápica que pode te ajudar no TRATAMENTO TRAUMAS COM EMDR.

Qual a importância no tratamento de traumas ?

O trauma não é apenas uma lembrança dolorosa. Ele pode acarretar em sintomas físicos, como dores crônicas, tensão muscular, fadiga. Impactos em, relações disfuncionais , auto estima baixa e maiores de chances de comorbidades psiquiátricas.

Um evento doloroso pode deixar “resíduos” na forma de crenças negativas, como “eu não tenho valor”, “eu não mereço ser amado” ou “não sou seguro em lugar nenhum”. O reprocessamento permite que o cérebro ressignifique esses eventos, ajudando a perceber que o que aconteceu com você não define quem você é.

O que é EMDR?

EMDR é a sigla para Eye Movement Desensitization and Reprocessing, ou, em português, Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares. Trata-se de uma abordagem estruturada, desenvolvida em 1987 pela psicóloga americana Francine Shapiro, que utiliza a estimulação bilateral — geralmente por meio de movimentos oculares guiados — para ajudar o cérebro a reprocessar memórias traumáticas.

Diferentemente de outras abordagens terapêuticas que trabalham primariamente com a fala e a análise cognitiva, o EMDR atua diretamente nos mecanismos neurofisiológicos de processamento da memória. A premissa central é que experiências traumáticas ou adversas podem ser armazenadas de forma disfuncional no cérebro, mantendo vivas as emoções, sensações corporais e crenças negativas associadas ao evento original — mesmo anos ou décadas após sua ocorrência.

Desde sua criação, o EMDR acumulou um corpo robusto de evidências científicas. Hoje, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela American Psychological Association (APA) e pelo National Institute for Health and Care Excellence (NICE) como tratamento de primeira linha para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Como funciona o EMDR no cérebro?

Para compreender o EMDR, é útil entender como o cérebro normalmente processa experiências. Em condições ideais, o sistema de processamento adaptativo de informações (modelo AIP, proposto por Shapiro) integra novas experiências às redes de memória existentes, extraindo aprendizados e descartando o que não é necessário. É por isso que a maioria das experiências, mesmo as desagradáveis, gradualmente perdem sua carga emocional com o tempo.

No entanto, quando uma experiência é excessivamente perturbadora — seja um acidente, uma situação de violência, uma perda súbita ou até mesmo eventos aparentemente “menores” ocorridos na infância — o sistema de processamento pode ser sobrecarregado. A memória fica armazenada de forma fragmentada, com todos os seus componentes sensoriais e emocionais intactos: o cheiro, o som, a dor, o medo. É como se o cérebro congelasse aquele momento no tempo.

O resultado? Gatilhos no presente — um tom de voz, uma situação social, um lugar específico — podem reativar essa memória não processada, provocando reações emocionais intensas, flashbacks, pesadelos, ansiedade ou comportamentos de evitação. A pessoa reage como se o trauma estivesse acontecendo agora, porque, para o cérebro, em certo sentido, ele está.

O EMDR utiliza a estimulação bilateral — movimentos oculares, toques alternados ou estímulos sonoros — para ativar os mecanismos naturais de processamento do cérebro. Pesquisas em neuroimagem demonstram que, durante as sessões de EMDR, há mudanças significativas na atividade da amígdala (centro do medo), do hipocampo (consolidação da memória) e do córtex pré-frontal (regulação emocional).

O meu plano terapêutico, na abordagem do trauma, inclui escuta ativa, acolhimento , prescrição medicamentosa para alívio de sintomas  ( quando indicados ) e o EMDR vem com a resolutividade de feridas emocionais mais profundas.

Para quais condições o EMDR é indicado?

Embora o EMDR tenha sido originalmente desenvolvido para o tratamento do TEPT, décadas de pesquisa expandiram significativamente suas aplicações clínicas. Hoje, há evidências de sua eficácia em diversas condições:

•Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) — a indicação mais estudada e com evidências mais robustas

•Transtornos de ansiedade — incluindo fobias específicas, transtorno de ansiedade generalizada e transtorno de pânico

•Depressão — especialmente quando associada a eventos traumáticos ou adversidades na infância

•Luto prolongado— quando a perda de um ente querido permanece não processada

•Dor crônica — estudos demonstram redução significativa da percepção de dor após o reprocessamento de memórias associadas

•Transtornos alimentares — particularmente quando há histórico de trauma subjacente

•Dependência química — como parte de abordagens integradas de tratamento

•Experiências adversas na infância — negligência, bullying, separações, abuso emocional

É importante ressaltar que nem todo sofrimento emocional é consequência direta de um trauma “clássico”. Muitas vezes, experiências que parecem insignificantes — uma humilhação na escola, uma rejeição afetiva, a sensação crônica de não ser suficiente — podem ser armazenadas de forma disfuncional e alimentar padrões de sofrimento no presente.

Quanto tempo para notar uma melhora  ?

Um aspecto notável do EMDR é a velocidade dos resultados. Estudos mostram que mais de 70% dos pacientes com trauma único melhoram significativamente após apenas três a seis sessões. Em casos de traumas múltiplos ou complexos, o tratamento naturalmente demanda mais tempo, mas os resultados permanecem significativos. O ritmo é sempre respeitado considerando o tempo  e tolerância do paciente, cada processo é único.

Pesquisas com neuroimagem funcional (FMRI) revelam mudanças mensuráveis na atividade cerebral após o tratamento com EMDR: redução da hiperativação da amígdala, normalização da atividade do hipocampo e aumento da conectividade com o córtex pré-frontal. Em outras palavras, o cérebro literalmente reorganiza a forma como armazena e acessa a memória traumática.

Além disso, estudos de acompanhamento de longo prazo demonstram que os ganhos terapêuticos obtidos com EMDR são duráveis — os pacientes mantêm a melhora mesmo após o término do tratamento, sem necessidade de sessões de manutenção ,na maioria dos casos.

EMDR no meu consultório

Cada vez mais reconhecemos que muitos quadros psiquiátricos — depressão resistente, ansiedade crônica, instabilidade emocional, insônia persistente — têm raízes em experiências traumáticas não processadas. A medicação pode estabilizar sintomas, mas frequentemente não alcança a memória disfuncional que os alimenta.

Na minha consulta, o uso do  EMDR é oferecer um tratamento verdadeiramente integrativo: estabilização farmacológica, quando necessário, aliada ao reprocessamento das memórias que sustentam o quadro clínico. Essa abordagem permite redução gradual da medicação e resultados mais profundos e duradouros.

O que eu  observo no meu acompanhamento, é  que os pacientes relatam não apenas a remissão dos sintomas, mas uma transformação qualitativa na forma como se relacionam consigo mesmos e com suas histórias. A memória traumática permanece — ela não é apagada —, mas perde seu poder de afetar o presente.

O que esperar de uma sessão de EMDR?

Uma dúvida comum entre pacientes que consideram o EMDR é: “vai ser difícil?” A resposta honesta é que o processo pode ser emocionalmente intenso em alguns momentos — afinal, estamos acessando material que foi evitado justamente por ser doloroso. No entanto, o protocolo é desenhado para que isso aconteça de forma gradual, controlada e segura.

Durante a estimulação bilateral, o paciente não precisa narrar detalhadamente o evento traumático — uma diferença significativa em relação a outras abordagens. Muitos pacientes relatam que o processo se assemelha a “assistir a um filme” da memória, com a diferença de que, à medida que o reprocessamento avança, as cenas se tornam menos vívidas, menos carregadas emocionalmente, e novos insights surgem espontaneamente.

Após a sessão, é comum que o processamento continue de forma natural nos dias seguintes, manifestando-se como sonhos vívidos, insights repentinos ou mudanças sutis na percepção de situações cotidianas. Isso é esperado e saudável — é o cérebro completando seu trabalho de integração.

A minha metodologia de cuidado envolve deixar um canal de comunicação aberto e acolhedor, para que o paciente se sinta seguro durante todo o processo.

Quando procurar ajuda?

Se você reconhece que experiências passadas continuam impactando sua qualidade de vida — seja através de ansiedade persistente, reações emocionais desproporcionais, dificuldade em confiar, autoestima fragilizada ou padrões de relacionamento destrutivos — agende sua  avaliação!

O primeiro passo é sempre uma anamnese clínica cuidadosa. Nem todo sofrimento emocional requer EMDR, e nem todo paciente está pronto para iniciar o reprocessamento imediatamente.

Com o tratamento adequado, é possível reescrever a relação com o passado e recuperar a liberdade de viver plenamente o presente.