Dra. Agnes Ayumi

Por Dra. Agnes Ayumi – CRM 45153

Você já entrou em um cômodo e esqueceu completamente o que foi fazer ali? Já perdeu o fio da meada no meio de uma conversa importante? Ou talvez tenha passado minutos procurando os óculos que estavam na sua cabeça? Se você convive com ansiedade, provavelmente conhece bem essas situações — e, mais do que isso, provavelmente já se perguntou: “será que estou ficando louco?” ou “será que há algo errado com a minha memória?“.

Antes de tudo, quero que você saiba: não, você não está ficando louco. E não, provavelmente não há nada de errado com a sua memória em si. O que acontece é que o seu cérebro está operando em um estado que podemos chamar de “modo de sobrevivência” — e, quando isso acontece, funções cognitivas como a memória ficam temporariamente comprometidas. Esse é um mecanismo biológico legítimo, amplamente documentado na literatura psiquiátrica e neurocientífica, e compreendê-lo é o primeiro passo para retomar o controle.

Neste artigo, vamos explorar, com profundidade e embasamento científico, por que a ansiedade causa esquecimentos e como lidar com esses esquecimentos, que são essenciais para a sua qualidade de vida. Analisaremos os fatores que contribuem para esses esquecimentos e ofereceremos dicas práticas para melhorar sua memória e bem-estar.

1. Ansiedade: Muito Além do ‘Nervosismo’

A ansiedade é, antes de mais nada, uma resposta adaptativa. Em termos evolutivos, ela nos protegeu de predadores, de situações perigosas e de ameaças à sobrevivência. O problema surge quando essa resposta se torna desproporcional, persistente e incapacitante — configurando o que o DSM-5 classifica como Transtornos de Ansiedade.

Segundo o DSM-5, os transtornos de ansiedade compartilham características de medo e ansiedade excessivos, além de perturbações comportamentais relacionadas. O medo é definido como a resposta emocional a uma ameaça real ou percebida como iminente, enquanto a ansiedade é a antecipação de uma ameaça futura. Essas duas respostas se sobrepõem, mas também se diferenciam: o medo está mais frequentemente associado a surtos de excitação autonômica necessários para luta ou fuga, enquanto a ansiedade está mais associada à tensão muscular, à vigilância e a comportamentos de cautela ou esquiva.

A ansiedade patológica envolve uma ativação crônica do sistema nervoso autônomo, particularmente do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), que mantém o organismo em um estado de alerta constante. É precisamente essa ativação crônica que vai impactar funções cognitivas como atenção, concentração e memória.

2. O Cérebro em ‘Modo de Sobrevivência’: A Neurobiologia do Medo

Quando percebemos uma ameaça — real ou imaginária —, a amígdala cerebral é ativada. A amígdala funciona como um “alarme” neural: ela detecta perigo e dispara uma cascata de respostas fisiológicas, incluindo a liberação de cortisol e adrenalina. Essas substâncias preparam o corpo para lutar, fugir ou paralisar.

O problema é que, durante esse processo, o cérebro redistribui seus recursos. A prioridade passa a ser a sobrevivência imediata, e funções consideradas “não essenciais” naquele momento — como a consolidação de memórias, o planejamento a longo prazo e o raciocínio abstrato — ficam em segundo plano.

O córtex pré-frontal, região responsável pelas funções executivas (planejamento, tomada de decisão, memória de trabalho), tem sua atividade reduzida quando a amígdala está hiperativada. Isso significa que, em estados de ansiedade intensa, o cérebro literalmente “desliga” as áreas responsáveis pelo pensamento organizado e pela memória de curto prazo.

É como se o seu cérebro dissesse: “Não temos tempo para lembrar onde você colocou as chaves — estamos tentando sobreviver aqui!”. Claro, na maioria das vezes, não há um perigo real. Mas o cérebro ansioso não faz essa distinção com facilidade.

3. Cortisol: O Hormônio que Rouba suas Memórias

O cortisol, frequentemente chamado de “hormônio do estresse”, desempenha um papel central na relação entre ansiedade e esquecimento. Em níveis moderados, o cortisol pode até melhorar a consolidação de memórias — é por isso que lembramos com clareza de eventos emocionalmente marcantes. Contudo, quando os níveis de cortisol se mantêm cronicamente elevados — como ocorre nos transtornos de ansiedade —, o efeito é oposto.

Estudos neurocientíficos demonstram que o excesso de cortisol danifica os neurônios do hipocampo, a estrutura cerebral diretamente envolvida na formação e recuperação de memórias. A exposição prolongada ao cortisol pode levar a uma redução volumétrica do hipocampo, o que se manifesta clinicamente como dificuldades de memória, desorientação temporal e sensação de “mente em branco”.

É importante compreender que esses efeitos não são irreversíveis. Com tratamento adequado — psicoterapia, manejo farmacológico quando indicado e mudanças no estilo de vida —, o hipocampo demonstra notável capacidade de recuperação, um fenômeno conhecido como neuroplasticidade.

4. Atenção Seletiva e Viés Atencional: Quando o Cérebro só Enxerga Ameaças

Outro mecanismo fundamental que explica os esquecimentos relacionados à ansiedade é o viés atencional. Quando estamos ansiosos, nossa atenção se torna hipervigilante — mas não para tudo. O cérebro ansioso prioriza estímulos percebidos como ameaçadores e ignora informações neutras ou positivas.

O DSM-5 menciona que indivíduos com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), por exemplo, frequentemente relatam dificuldade de concentração ou “brancos” mentais como sintomas centrais do quadro. Isso ocorre porque a capacidade atencional é limitada: se a maior parte dela está sendo consumida pela preocupação e pela vigilância, sobra muito pouco para processar informações cotidianas.

Na prática, isso significa que você pode ouvir uma informação importante — o nome de alguém, um compromisso, uma instrução no trabalho — mas simplesmente não a registra, porque sua mente está ocupada processando preocupações. Não se trata de falta de inteligência ou de capacidade: trata-se de um cérebro sobrecarregado.

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5. A Memória de Trabalho sob Pressão

A memória de trabalho — aquela que usamos para reter informações temporárias enquanto realizamos tarefas (como lembrar um número de telefone enquanto procuramos onde anotá-lo) — é particularmente vulnerável à ansiedade.

A ansiedade gera o que podemos chamar de “ruído cognitivo”: pensamentos intrusivos, ruminações e preocupações que competem pelos mesmos recursos neurais que a memória de trabalho utiliza. É como tentar ouvir uma conversa em uma festa lotada: a informação está lá, mas o “barulho” interno impede que ela seja captada adequadamente.

Pesquisas em neuropsicologia mostram que indivíduos com níveis elevados de ansiedade apresentam desempenho significativamente inferior em tarefas que exigem memória de trabalho, especialmente sob pressão. Isso explica por que muitas pessoas “travam” em provas, apresentações ou entrevistas de emprego, mesmo dominando o conteúdo.

6. Dissociação e Desrealização: Quando o Cérebro ‘Desconecta’

Em casos mais intensos de ansiedade, especialmente durante crises de pânico, pode ocorrer o fenômeno da dissociação — uma espécie de “desconexão” da realidade. O DSM-5 reconhece a presença de sintomas dissociativos como desrealização (sensação de que o mundo ao redor não é real) e despersonalização (sensação de estar fora do próprio corpo) em diversos transtornos de ansiedade.

Esses estados dissociativos prejudicam profundamente a formação de memórias. Se o cérebro não está plenamente “presente” no momento, a codificação da experiência fica comprometida. Muitas pessoas descrevem que não conseguem lembrar o que aconteceu durante uma crise de pânico, ou que períodos inteiros do dia parecem “apagados”.

7. O Ciclo Vicioso: Ansiedade → Esquecimento → Mais Ansiedade

Um dos aspectos mais desafiadores dessa relação é que ela tende a se retroalimentar. A pessoa ansiosa percebe que está esquecendo coisas, e essa percepção gera ainda mais ansiedade (“Será que tenho Alzheimer?”, “Será que estou perdendo o controle?”). Essa ansiedade adicional piora ainda mais a função cognitiva, criando um ciclo difícil de romper sem intervenção adequada.

Observo na minha experiência que , quando o paciente compreende que seus esquecimentos são uma consequência esperada e tratável do seu quadro ansioso — e não um sinal de deterioração cognitiva —, a própria ansiedade relacionada ao sintoma tende a diminuir significativamente.

8. Caminhos para a Recuperação: O que a Ciência nos Mostra

A boa notícia é que os prejuízos cognitivos causados pela ansiedade são, na grande maioria dos casos, reversíveis. Aqui estão as principais abordagens respaldadas pela literatura:

Psicoterapia: A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada o tratamento de primeira linha para transtornos de ansiedade. A TCC ajuda o paciente a identificar e modificar padrões de pensamento disfuncionais, reduzindo a ativação crônica do sistema de alerta.EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Bilaterais) têm demonstrado eficácia notável pela abordagem das memórias traumáticas, que mantêm o sistema de alerta ligado sem necessidade

Farmacoterapia: Quando indicada, a intervenção medicamentosa — particularmente com inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) — pode reduzir significativamente os níveis de ansiedade e, consequentemente, melhorar a função cognitiva. A decisão sobre o uso de medicação deve sempre ser individualizada e acompanhada por um profissional.

Atividade Física Regular: Exercícios aeróbicos demonstram reduzir os níveis de cortisol, aumentar a produção de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro) e promover a neurogênese hipocampal — essencialmente ajudando o cérebro a se regenerar.

Higiene do Sono: O sono é fundamental para a consolidação da memória. A ansiedade frequentemente compromete a qualidade do sono, e melhorar essa dimensão é essencial para a recuperação cognitiva.

Práticas de Mindfulness e Meditação: Estudos mostram que a prática regular de mindfulness pode reduzir a reatividade da amígdala e fortalecer a conectividade do córtex pré-frontal, melhorando tanto a regulação emocional quanto a função cognitiva.

Considerações Finais:

Se você chegou até aqui e se identificou com o que foi descrito, quero reforçar uma mensagem fundamental: seus esquecimentos podem ser manifestações de um cérebro que está trabalhando intensamente — talvez intensamente demais.

A ansiedade é um dos transtornos mentais mais prevalentes no mundo, e o Brasil ocupa um dos primeiros lugares em incidência global. Buscar ajuda profissional não é primordial. Nas minhas consultas busco  avaliar adequadamente seu quadro, excluir outras causas para os sintomas cognitivos e propor um plano de tratamento personalizado.

Referências

American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Miguel, E.C.; Gentil, V.; Gattaz, W.F. Clínica Psiquiátrica: Os Fundamentos da Psiquiatria. Barueri: Manole, 2021.

Miguel, E.C.; Gentil, V.; Gattaz, W.F. Clínica Psiquiátrica: Guia Prático. 3ª ed. Barueri: Manole, 2021.

Esses esquecimentos podem ser impulsionados por um estado constante de alerta, que desencadeia uma resposta de luta ou fuga. Nesse contexto, o cérebro prioriza a sobrevivência em detrimento de processos cognitivos mais complexos, como a memória e a concentração. É crucial, portanto, observar esses sinais e procurar uma avaliação adequada, uma vez que o tratamento adequado pode aliviar os sintomas e restaurar a funcionalidade cognitiva. A saúde mental é uma prioridade e deve ser abordada com seriedade e profissionalismo.